Devocional
Jó 2: Sete Dias Sentados Sobre a Cinza
Durante os sete dias e noites seguintes, os três se sentaram junto com Jó, sobre a cinza, sem dizer uma única palavra, porque viram que o sofrimento de Jó era grande demais.
Jó 2:13 (ONBV)
Capítulo completo — Jó 2
Jó 2
ONBV
1Em outra ocasião, quando os anjos se reuniram na presença do Senhor, Satanás estava entre eles mais uma vez. 2“De onde você veio?”, perguntou o Senhor a Satanás. “Estive rodeando a terra, passeando por ela”, foi a resposta. 3“Então você deve ter observado o meu servo Jó”, disse o Senhor a Satanás. “Deve ter observado que não há ninguém na terra como ele, tão íntegro e correto, temente a Deus e cuidadoso para não cometer mal algum. Jó ainda me ama de coração, apesar de eu ter permitido que você tirasse tudo dele para arruiná-lo, embora não houvesse motivo algum para isso”.
4Satanás respondeu ao Senhor: “Cada um cuida de sua própria pele! Qualquer um não se importaria em perder tudo desde que conserve a sua vida. 5Mas se o Senhor estender a sua mão e tirar a saúde de Jó, ele acabará amaldiçoando o Senhor abertamente!” 6E o Senhor disse a Satanás: “Está bem! Faça o que quiser com ele, mas não tire a sua vida!”
7Então Satanás saiu da presença do Senhor e lançou uma terrível doença sobre Jó. O corpo de Jó ficou inteiramente coberto de feridas abertas e cheias de pus, dos pés à cabeça. 8Sofrendo muito, Jó se sentou sobre um monte de cinzas e com um caco de vidro coçava as suas feridas. 9Então a esposa de Jó, revoltada, exclamou: “Você ainda continua sendo íntegro? O melhor que você pode fazer é amaldiçoar Deus e morrer!”
10Mas Jó respondeu: “O que você está falando é loucura. Já recebemos tantas coisas boas de Deus, por que não receber também o mal?” E mesmo diante de todo esse sofrimento, Jó não pecou, nem disse uma palavra má contra Deus. 11Três amigos de Jó ouviram sobre todos os males que o haviam atingido e planejaram fazer-lhe uma visita, para dar um pouco de consolo e ânimo. Os nomes desses três amigos eram Elifaz, da cidade de Temã, Bildade, da cidade de Suá, e Zofar, da cidade de Naamate. 12Quando os três viram Jó de longe, mal puderam reconhecer seu amigo. Cheios de tristeza, rasgaram suas roupas, chorando em voz alta, e jogaram terra sobre a cabeça.
13Durante os sete dias e noites seguintes, os três se sentaram junto com Jó, sobre a cinza, sem dizer uma única palavra, porque viram que o sofrimento de Jó era grande demais.
Observação
Um caco de vidro serve de unha, um monte de cinzas serve de cadeira. Jó, que no capítulo anterior era o homem mais respeitado do Oriente, agora arranha feridas abertas dos pés à cabeça (v. 7-8). A cena não tem plateia, só dor.
A conversa no céu abre o capítulo, e ela incomoda. O Senhor repete o elogio a Jó e Satanás responde com uma tese de mercado: “Cada um cuida de sua própria pele” (v. 4). Para ele, a fé de Jó só sobrevive enquanto o corpo estiver inteiro. Deus permite o teste, com um limite claro: a vida fica fora do alcance (v. 6).
Aí entra a esposa de Jó, que também enterrou filhos e perdeu a casa. A fala dela, “amaldiçoe Deus e morra” (v. 9), soa menos como blasfêmia calculada e mais como cansaço sem saída. Jó responde sem humilhá-la: chama a fala de loucura e devolve uma pergunta honesta sobre receber o bem e o mal (v. 10).
O trecho final é o mais curto em palavras e o mais longo em tempo. Elifaz, Bildade e Zofar chegam, quase não reconhecem o amigo, rasgam as roupas e sentam. Sete dias, sete noites, nenhuma frase (v. 11-13).
Aplicação para Vida
Eu conheço bem a vontade de consertar a dor dos outros com uma frase. Mensagem pronta, versículo colado, “tudo vai passar”. Os amigos de Jó, nos primeiros sete dias, fizeram o que quase nunca fazemos: ficaram.
Quem visita um hospital, um luto ou uma demissão costuma sair procurando o que dizer. O capítulo sugere começar por onde sentar. A presença sem discurso diz que a pessoa não precisa explicar o próprio sofrimento para merecer companhia.
Há também a lição para quem está sobre a cinza. Jó não fingiu que doía pouco, mas não trocou a confiança por alívio imediato. Resistir a uma saída fácil, como a que a esposa ofereceu, pode ser a coragem mais silenciosa de uma semana ruim.
E fica um aviso para depois dos sete dias. Quando os amigos abrirem a boca, no capítulo 4, a conversa vai estragar o que o silêncio construiu. Vale lembrar disso antes de responder a quem sofre.
Oração
Senhor, hoje não vou abrir com lista de pedidos. Vou sentar um pouco aqui, na cinza de quem eu conheço e na minha própria, e ficar.
Tu viste o caco de vidro, o pus, a mulher exausta, os amigos sem palavras. Nada disso passou despercebido, mesmo quando o céu parecia calado. Segura quem hoje arranha as próprias feridas e não encontra ninguém por perto.
Ensina-me a ir até a porta de quem sofre e a calar quando as palavras forem mais baratas que a presença. E, quando for a minha vez de sentar na cinza, manda alguém que fique sete dias sem me explicar nada.
Amém.